Tem aquela idade

O-tempo-voa-Relógio-CriativoTem aquela idade que todos convidam para as festas de 15 anos. (Antes disso eu não reparava nesse tipo de coisa). Tem idade que todo mundo tem um trabalho voluntário, um orfanato para ir.

Tem aquela idade que todos estão contando como foi o trote na faculdade. Tem aquela idade que todas estão em busca do vestido de formatura, e começam a chegar os convites para as mesmas.

Aquela idade que as avós de todo mundo começam a morrer. Depois os cães de estimação, ou gatos. Até os peixeis. Todos resolvem morrer na mesma época.

Tem aquela idade que todos parecem ter um chá bar/de cozinha/ de lingerie para ir. Tem aquela idade que após os chás de cozinha, todo mês tem um chá de bebê….

Tem aquela idade que os amigos começam a ir morar longe, os primos tem filhos e começam a não vir mais nas festinhas. Você começa a não ter mais tempo para as festas, ou para os filhos, ou para os outros parentes, ou para o trabalho.

Tem aquela idade que os professores começam a morrer. Pior que as avós. Porque as avós vocês sempre viu velhinhas mesmo. Mas os professores, de mestres viram colegas, e colegas parecem ter todos a mesma idade. Colegas são imortais…

Então, as vezes após os professores, as vezes antes, os pais de todo mundo começam a morrer. Ai as mães. Dos seus amigos de infância, dos primos dos seus amigos, do seu namorado/marido/caso…. Pais e mães deveriam ser imortais. Mas assim como os professores e colegas, não são.

Chega uma idade que as conversas de rodas de amigos – quando se encontram nas folgas dos filhos, família, trabalho – tem sempre o mesmo começo “Sabe quem morreu?”.

É nessa idade que a gente se preocupa com a própria morte.

(Izabel M. Meo)

Achei a foto aqui.

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Nossas conversas assobiadas

Por: Marianna Abdo

Durante muito tempo o que não falávamos em palavras, falávamos em assobios. Era um jeito de termos mais uma linguagem só nossa, embora, nossos olhares já dessem conta disso. Talvez fosse só um jeito de rirmos juntos. Não sei.

Eu “dizia” algum som parecido com “fiu” ao entrar em casa e você respondia de volta “fiu”. Estabelecemos algo como um “ah!” para as vezes que queríamos dizer: “Sim, estou aqui, mas é só isso. Não quero falar mais nada”. E estava tudo bem.

Em nossos muitos silêncios no sofá e longas esperas pela mamãe, era só passar das 20h para você assobiar: “Cadê a Fofolete?”. Era seu jeito de dizer que ela estava demorando e você tinha notado.

Não tínhamos muitas frases porque nunca gostamos de falar muito mesmo. E muitas delas buscavam apenas o riso, como quando eu “dizia”: “Papaizinho querido, papaizinho meu amor”. E você respondia de volta assobiando: “O que você está quereeendooo?”. E puxava a vogal final até quase perder o ar, virava os olhos e tremia a cabeça. Eu não queria nada, só ver essa cena e rir com você.

Sempre terminava em risada e com um novo assobio pedindo “cheiro, cheiro”. Ao invés de te oferecer minha cabeça eu levantava o meu pé a ponto de quase encostar no seu nariz. Quando eu ficava no quarto estudando ou trabalhando, você assobiava da sala, em tom de lamento: “Ei, Marianna, vem cá. Vem cá, Marianna, vem cá!!”.

Se eu ficava muito tempo sem assobiar, você logo reclamava. Dizia com voz e firmeza que eu estava deixando de fazer as coisas boas.

Mas aí você parou de assobiar. Parou porque tínhamos que poupar o pouco ar que você tinha no peito e duas frases já te cansavam. No começo você até tentou e, por dentro, eu ficava apreensiva achando que isso podia piorar as coisas. Mas a gente queria rir e, meu Deus, como a gente precisava rir.

Até que a casa se encheu de cilindros de oxigênio e você parou de vez.  Nunca falamos disso, mas eu notei. Foi na mesma época que você também parou de buscar o jornal para mim no portão do prédio. Mais uma das coisas boas que a doença foi tirando da gente e eu derramava no choro do banho, enquanto você serenamente aceitava.

Hoje lembrei das nossas conversas assobiadas. Abri a porta de casa e disse “fiu” para o silêncio cheio de você. Detalhes tão pequenos de nós dois, já dizia Robertão.

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Precisamos falar sobre o câncer

Por: Marianna Abdo

Meu irmão morreu aos 7 anos, de câncer. Meu pai morreu 20 anos depois, de câncer. Antes que me perguntem se eu tenho medo de ter câncer, respondo: Sim, e você também deveria ter.

Gostamos de achar que estamos isentos do risco porque não temos um caso na família. Os tumores/lesões que atingiram a minha família não são hereditários. Fomos “vítimas” – entre aspas e por falta de uma palavra melhor, pois nunca fomos vítimas de nada – de uma infeliz coincidência, que reduziu minha família, já pequena, à metade.

Durante toda a minha vida presenciei minha mãe ouvindo – nunca de médicos – sobre o cuidado que ela deveria tomar para não perder outra filha de câncer. Uma crueldade de se dizer para alguém que já havia passado uma vez por essa dor. As boas intenções guardam uma grande tendência de serem cruéis.

Depois, durante os quase três anos de tratamento vividos pelo meu pai, novos questionamentos: “Teria sido ele o gene do mal que matou o filho?”. E como sofrimento pouco é bobagem, durante esses 10 meses de luto, ouvi novos alertas. Até o meu namorado ouviu um bem intencionado “cuidado, ela pode ter câncer”.

Pensei em escrever um texto raivoso sobre a falta de noção, de tato, de alcance e de humanidade das pessoas. Pensei em xingar muito no Facebook. Mas, passado o momento de indignação, pensei: “Marianna, perdoa-lhes, eles não sabem o que dizem”. E não sabem. Eu sei e minha mãe também.

Por isso, resolvi escrever esse texto para dizer que sim, eu tenho medo de ter câncer, mas você também deveria ter. Não um medo que te fizesse se preocupar com qualquer pinta ou nunca mais tomar sol. E sim um receio que te faça se cercar de alguns cuidados. Quais? Não sei. Mal a medicina sabe.

Eu fiz up grade do meu convênio após a morte do meu pai. Pago o dobro apenas para que ele cubra o hospital do câncer mais especializado do país.

Não sei se você vai parar de beber, de fumar, de comer fast food, se vai tirar as mamas como a Angelina Jolie ou vai pagar caros exames para mapear os riscos. Não deixe a preocupação te enlouquecer, afinal pessoas que nunca acenderam um cigarro já tiveram câncer no pulmão. Mas não se sinta imune. Não ache que está livre apenas pela falta de casos na família. Entenda: o câncer é a doença da nossa época.

E, por favor, não joguem o peso da culpa nos familiares. Eles já descobriram o câncer da pior forma, não precisam ouvir de vocês. Muitos já sabem que a doença pode ser traiçoeira. Deixem os alertas para os médicos, se eles julgarem necessário. Eu nunca ouvi de nenhum.

Pois é, você deve estar pensando: Ué, mas o título desse texto não é “Precisamos falar sobre o câncer?”. É e precisamos. Ela não deve ser mais aquela doença não dita nos lares. Mas precisamos falar sem a arrogância dos que se julgam isentos. Nem os oncologistas abordam o tema assim, não os bons.

E enquanto falamos, vamos vivendo. Afinal, é o que nos resta.

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O que poderia ter sido

2015-01-27 06.21.388 anos, 7 meses e 24 dias.

Certas músicas vem na minha cabeça do nada. Músicas alegres quando quero ficar triste, músicas tristes quando luto para ficar alegre.

Quando minha cabeça está prestes a explodir diante do mundo que eu conheci, e você não, você vem e me lembra que existiu.

Conforme o tempo passou eu fui esquecendo o seu dia. Agora eu lembro muito antes, ou muito depois.

Hoje me lembrei de você. Ao contar quantos dias você me deixou percebi que eles não tem sentido lógico. Somando todos dá 3, mas somente o dia 6 me assombra.

Minha mãe sempre disse, antes de você me deixar inclusive, que “quem acredita em Deus não tem medo de assombração”. Você não me assombra, sua lembrança é doce. Sua voz, quando ecoa na minha cabeça, é muda. Só lembro do seu sorriso.

Ainda assim, tenho medo. Tem dias que peço “não venha”, mesmo sabendo que você nunca virá. E foi você que escolheu isso.

Tem tanta coisa que eu queria contar! O mundo girou tantas vezes desde a última vez que conversamos. Eu mudei tanto! Aconteceu tanta coisa! Pessoas tomaram seu lugar no mundo dos vivos para preencher minha vida, e hoje, 8 anos, 7 meses e 24 dias depois eu fico pensando, o que teria acontecido se você ainda estivesse aqui?

http://grooveshark.com/s/Who+Knew/56fpdK?src=5

http://grooveshark.com/s/If+I+Die+Young/4cBVyF?src=5

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Metas

A Iza2014-11-19 13.43.40 Espelho no Salão de Baile do Museu da Revolução - Havana - Cubabel de 13 anos veio lembrar a Izabel de 26 que ela queria ser escritora – e famosa – antes dos 30 anos. Ai meu Deus que eu só tenho mais quatro! (Agora fico feliz que escolhemos o nome desse blog para 20 e TANTOS, não 20 e poucos. Mais 4 anos e saio dessa ‘casa’ onde sempre quis estar).

Engraçado sempre querer chegar aos 20, mas ter feito metas a partir dos 30. Por exemplo, eu queria casar com 30, dar a volta ao mundo com 33, ter filhos com 35… Mas foi durante os 20 anos que eu conquistei tantas coisas que nem me dei conta (e fui deixando mais longe o sonho de ser escritora – e famosa).

Eu tinha 20 anos quando me formei na faculdade. Eu tinha 21 quando arrumei o primeiro emprego registrada. Eu tinha 23 quando cruzei o oceano, de avião, e viajei com uma das minhas anjas da guarda, numa loucura tanto social quanto financeira da qual não me arrependo. (Paris) Eu tinha 24 quando disse sim a um sonho que sonhei junto com o Rafael (nosso noivado). Eu tinha 25 quando terminei uma pós graduação suada, que não ‘mudou minha vida’ como eu esperava, mas me deu chances de conhecer uma atividade pela qual me apaixonei e quero investir muito tempo e dedicação para fazer acontecer em 2015 (facilitação gráfica). Eu tinha 26 quando sai de mãos dadas com o amor da minha vida (casamento) e fomos conhecer um país novo, somente algumas semanas antes de muita coisa mudar por lá (Cuba).

E agora, às vésperas de 30 (quatro anos passam voando, viu?), eu me pergunto porque não escrevi sobre tudo isso enquanto isso acontecia… Mesmo tendo esse blog lindo, ao lado dessas meninas incríveis, eu deixei de lado a criatividade, a reflexão e meditação que a escrita sempre me permitiram para fazer outras coisas… Mas que outras coisas?

A Meta para 2015 é criar mais.

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Para papai e suas músicas

Por: Marianna Abdo

Ouço suas músicas para ficar mais perto de você.
Ouço suas músicas para lembrar da sua posição no sofá, batucando com a mão direita no joelho lustrado (esse brilho sempre me impressionou) e dizendo que algumas letras são tão lindas que dão até vontade de sofrer.
Ouço suas músicas para lembrar de todas as vezes que dizia meu nome depois que Caetano cantava “você é linda”.
Ouço Bruno e Marrone porque “só eu sei o que é que eu faço com essa falta de você”, pai.
Ouço suas músicas para lembrar de quando me disse que casaria com a mamãe de novo e eu pensei se era a música que tocava que te fez pensar nisso.
Ouço os CDS riscados para recordar das fitas quebradas pelo chão da casa – uma delas me rendeu um corte no pé – e lembrar que você não era assim tão bom.
Ouço suas músicas porque eram enquanto elas tocavam que tivemos as melhores conversas e os mais lindos silêncios.
Ouço suas músicas porque tocava uma delas quando você disse “que merda! Achei que ele seria seu último namorado” e acabou com o pouco de força que eu tinha.
Ouço Dominguinhos e “reparo naquela estrada, que distância nos levará”. E sei que você era o próprio Juca Pitanga Santeiro que “não perguntou pra ninguém o que era bom/
Se mandou pra capital/Não tinha medo de nada/Coragem sem freio/Filho do norte, da sorte, da fome e do meio”.
Ouço suas músicas que não são mais de Dominguinhos, Erasmo, Roberto, Zé Ramalho, Raul, Renato ou Zeca. Ouço porque são suas e as dores do meu coração de filha e os CDS agora todos meus.
Ouço suas músicas por todas as vezes que você as deixou de ouvir porque eu sofria de amor.

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Desde que você foi embora

Por: Marianna Abdo

Desde que você foi embora eu não chamo mais a mamãe pelo apelido, pois não suporto não ouvir sua risada ao fundo.

Desde que você foi embora eu não vou mais ao ballet porque na volta ninguém vai me perguntar “como foi seu treino?”.

Desde que você foi embora eu disco seu número quando algum famoso morre.

Desde que você foi embora eu não sei o que está acontecendo na política e nem nos negócios do Eike Batista, que você chamava de Elke.

Desde que você foi embora eu não vejo ninguém espiar da janela quando alguém me busca em casa.

Desde que você foi embora eu não encontro um olhar cúmplice quando alguém chato telefona para a mamãe ou uma visita chega sem avisar.

Desde que você foi embora eu não vejo a TV mudar de canal quando aquele personagem chato aparece.

Desde que você foi embora eu não sei quem estará no Roda Viva da TV Cultura.

Desde que você foi embora eu não ouço o cardápio que me aguarda na cozinha enquanto tiro os sapatos ao chegar em casa.

Desde que você foi embora eu não ouço ninguém dizer “filha linda, maravilhosa, eterna e única”.

Desde que você foi embora eu não tenho quem me conte a novela nos dias que não volto para casa.

Desde que você foi embora eu não tenho quem faça cafuné ou esquente meus pés.

Desde que você foi embora eu não pergunto mais se a minha bunda está marcando na calça.

Desde que você foi embora eu sinto vontade de dormir no seu guarda roupa que ainda guarda o cheiro seu.

Desde que você foi embora eu não poupo mais o mundo da minha sinceridade que parece ter somado a sua.

Desde que você foi embora eu vejo você em tudo que é lindo.

Desde que você foi embora eu não tenho de quem falar quando não quero falar de mim.

Desde que você foi embora eu não lembro de tomar minha vitamina e por isso as cápsulas mofaram no frasco.

Desde que você foi embora eu te desobedeço e só penso besteira enquanto dirijo.

Desde que você foi embora eu torço para que o boné que você deixou no banco de trás do meu carro não perca seu cheiro.

Desde que você foi embora eu não encontro mais seu terço no sofá.

Desde que você foi embora eu tenho medo da mamãe casar de novo.

Desde que você foi embora eu ouço a música Emoções todos os dias pela manhã e choro.

Desde que você foi embora eu não encontro mais a toalha de rosto do banheiro ensopada.

Desde que você foi embora eu imito o seu jeito de acariciar o cachorro pra ver se ele fica menos triste.

Desde que você foi embora eu chamo o cachorro de “Milico” como você fazia e ele abana o rabo.

Desde que você foi embora eu não cancelei seu celular.

Desde que você foi embora eu não deletei sua conta no Facebook.

Desde que você foi embora eu acordo durante a noite esperando ouvir sua tosse.

Desde que você foi embora eu descobri que o diafragma é o músculo das emoções e pode doer muito.

Desde que você foi embora eu tento me convencer que você foi embora.

 

 

 

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