Sem pai nem mãe, sem vida

Por Juliana

Os acontecimentos cada vez mais recorrentes de mães que abandonam e/ou matam os próprios bebês tem me deixado mal. Recentemente, em Cuiabá, a mãe teve a filha no vaso sanitário, fechou a tampa, puxou a descarga e a deixou por mais de meia hora dentro da água. Depois, resolveu colocar numa sacola e jogá-la na lixeira. Em São Paulo, a polícia investiga quem seria a mãe da recém-nascida encontrada na rua, dentro de um saco.

Na última semana, durante um dos jogos da seleção masculina de vôlei, uma cena chamou minha atenção. Após um erro da arbitragem ter desconcentrado os brasileiros e levado a seleção adversária a alguns pontos seguidos, o técnico Bernardinho pede tempo. Procura os olhos do filho, Bruno, e diz, com paciência: “calma, deixa passar, esquece.” Ao se virar para os outros, escuta Bruno xingar o juiz e, então, estoura: “porra, eu acabei de falar com você!”.

São pais e mães que nos dão esse puxão de orelha que a gente vai achar pra sempre que já sabe. Eles que nos conhecem a ponto de “adivinhar” a furada na qual estamos nos metendo. Advertem, opinam, aconselham. Deixam a gente quebrar a cara e nos acolhem de volta, ora sem julgar porque sabem que a dor de aprender nos custou caro, ora cutucando a ferida pra ver se “aprende de uma vez por todas”.

E aí eu me coloco a pensar e pensar e pensar que esses bebês não chegam nem perto de ter a consciência do que representa um conselho carinhoso, essa sabedoria paciente do “deixa passar” ou o “porra, eu acabei de te dizer isso”, também essencial às vezes. Nascem condenados por um ato de desespero.

Chamo de desespero porque não aceito acreditar em tamanha crueldade, ainda prefiro tentar entender. Sem justificativas, claro, mas buscar explicações me parece uma forma de tentar reverter. Uma esperança de que mães e pais parem de jogar a vida dos próprios filhos, literalmente, num saco de lixo.

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5 Comentários

Arquivado em Juliana

5 Respostas para “Sem pai nem mãe, sem vida

  1. Cada vez que ouço uma história de crianças abandonadas ou maltratadas fico maluca da vida. Porém, num sentimento bem egoísta, penso que pelo menos a criança não será criada por um monstro que tem coragem de joga-la fora. Resta esperar por uma família que a acolha….

  2. Graziele Storani

    É incrível como a falta de educação leva toda uma sociedade para o lixo. Falta informação, falta respeito e porque não amor? Como qualquer sentimento, amor é algo que sentimos quando pensamos, quando refletimos, quando temos a capacidade de pensar. Pra tudo é necessário informação, que infelizmente esses pais e mães não têm, assim como muitos dos miseráveis deste pais desprovido de educação.

  3. Novamente sintonia com a Eliane que também falou sobre pais e filhos em sua coluna dessa semana.

  4. Nossa, Mari! É verdade! Ae, Ju, seguindo os passos! Bjos!

  5. Não acho que esses pais que jogam os próprios filhos nos confins do submundo são desprovidos de educação ou sapiência. Creio que sejam desprovidos de segurança, de sensibilidade, DE VIDA. Alguém que é capaz de jogar o subproduto de sua própria matéria no lixo, não ama sua própria matéria. Não ama sua própria vida. Acho que falta vida na vida. Falta mais sensibilidade para perceber a monstruosidade de seus próprios atos.
    Amei o texto, Juu! 🙂 Te amo amo amo!
    Beijos,
    Maumau.

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