Arquivo do mês: novembro 2011

“Modernidade”

Por Juliana

Na semana passada, uns amigos comentavam sobre as novidades dos apartamentos padrão modernidade total. Uma delas é a existência de lanchonete 24h disponível aos moradores. Afinal, nada mais prazeroso para alguém que levantou às seis, trabalhou dez horas, enfrentou trânsito, caos e estresse do que um lanche “natural industrializado” ou um congelado três vezes mais caro do que no mercado.

Sim, usei de sarcasmo acima. É estranho como pensamos em tantas formas de contornar a correria e em nenhuma  para abrandá-la.

Outra super novidade do apartamento moderno é o uso do iphone para acender a luz. Pasmem! Não me surpreende que as pessoas tenham cada vez menos contato, visto que nem mais o interruptor da sala precisa ser alcançado.

Quem pensou nisso? Fico imaginando se tais inventores usassem dessa criatividade para algo um pouco menos… fútil.

Além de me sentir um ET por não entender isso como moderno coisa nenhuma, sinto tristeza pelos valores que estamos plantando. É uma pena constatar que necessitamos de botões e agilidade para contornar nossa falta de afeto, consequência de um cotidiano hostil e raso.

Não sou contra tecnologias, mas alguns discursos são contraditórios porque, vazios de objetivo, riscos e real valor, perdem o sentido de perpetuação de uma sociedade para o bem comum.

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Pobre inveja

Por: Marianna Abdo

Sempre achei bobo esse papo de “sentem inveja de mim”, “falam da minha vida”, “me copiam”. O facebook está cheio de posts com declarações parecidas. Estranho. Será que sua vida realmente causa todo esse efeito por aí?

Já estive em rodas de fofoca, já fui vítima de mal entendido e já desejei que as pessoas me esquecessem. Mas não reparo por aí se as pessoas imitam meu jeito de vestir, não me importo se compram algum objeto igual ao meu ou se incorporam no vocabulário uma ou outra expressão que eu uso ou criei.

Ingênua ou não, acredito que as pessoas vêm banalizando o uso da palavra inveja ou desejando ser invejadas.

Que tal descobrir e reparar em outros sentimentos? Atentar-se ao sentimento daquele amigo querido, à confiança conquistada e em como, talvez, as pessoas gostem também (e só gostem) da maneira como você se veste, do modelo do seu carro e do seu vocabulário engraçado. 

E se a inveja for verdadeira, dar ibope pra quê? Deixa pra lá, bobo. Finge que não viu pra não pegar. O que ignoramos, raramente nos afeta.

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O arrumar da casa

Por: Marianna Abdo

A vida é uma constante arrumação de casa. Quando você pensa que está tudo limpo, que a pia está vazia e os móveis estão no lugar, acontece alguma coisa que te faz pegar na vassoura. É o leite que derramou no fogão, o raio que caiu no telhado e abalou as estruturas ou um visitante que bagunçou tudo.

Aliás, são os hóspedes que fazem a zona maior: chegam sem avisar, comem seu chocolate, roubam o controle remoto e quando você acostuma com eles, vão embora. E deixam o lençol que nunca mais será o mesmo, o travesseiro com o seu cheiro e uma ou outra taça quebrada por descuido.

O visitante traz parte de si, conhece seu mundo, acrescenta músicas no seu Ipod, te ensina um novo verbo e te convence que, talvez, aquela poltrona fique melhor no outro canto da sala.

Quando o quarto de hóspede vira fixo, com cama de casal e abajur, você ganhou um companheiro de faxina.

Agora, de novo, é hora de desmontar o quarto, trocar os lençóis e recolher os cacos da taça. É hora de fechar a porta. Mas só consigo cerrá-la. Vou espiar pelo vão da porta para ver se o hóspede voltou.

Mas o meu arrumar da casa é como uma dieta: segunda eu começo.

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Os certinhos

Por: Marianna Abdo 

Eu gosto mesmo é dos certinhos. Dentro da caixa, coxinha, nerd, mauricinho, almofadinha. O que eu posso fazer se adoro um papo cabeça, um gel no cabelo, uma barba bem feita, uma camisa pólo e aquele cheiro de quem saiu do banho? Ai, não resisto. 

Mamãe e papai apóiam. Desconfio que meu pai, religioso que é, agradece todas as noites: Obrigado, Deus, por minha filha gostar de nerd. 

Admiro os descolados, desalinhados, de barba mal feita. Até ganham minha atenção. Têm muito charme, estilo e bom humor. Mas meu coração é mesmo dos certinhos. Sempre foi assim. No jardim II eu era apaixonada por umFelipeAugusto! Tem nome mais coxinha? Meio Carrossel, sabe? E o menino cresceu e virou padre. 

Os certinhos são mais sensíveis, se apegam aos detalhes, prestam atenção nas palavras, se preocupam com a aparência e reparam e elogiam a sua. Acho lindo! Eles são raros, mas estão por aí. E não estão só em livrarias, bibliotecas, salas de aula e bares chatos. Pelo contrário. São amigáveis, gostam de barulho (alguns por causa do rock), entendem de cerveja e tequila e se adaptam a diferentes pessoas. 

Acho também que são mais confiantes. Afinal, se vestem bem, falam bem, sobreviveram ao bullying e conviveram com um boletim azul. Medo do quê?   

Experimente soltá-lo em um ambiente de desconhecidos e derrubará todos os preconceitos da quinta série: só estuda, só joga vídeo game, é gago, foi criado pela avó, tem problemas respiratórios, usa óculos… 

As mulheres costumam achá-los desinteressantes. Dizem que não são atraentes, não têm pegada, que são bobos. Ah, mulherada, engano triplo. Mas não vou contar pra vocês. 

Esse texto é dedicado a todas as mães de certinhos, avós que criaram nerds, meninas que deram o primeiro beijo nesses garotos ou querem encontrar o seu alinhadinho. Certinhos, seus lindos, amo vocês.

 

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Aqui aí eco

Por: Marianna Abdo

Eu falo tanto que parece que nada calo. Mas há um tanto que eu guardo. E agora não vai sair. Vou deixar aqui. Porque se está aqui e não aí, talvez você não queira saber. Eu sei que o aqui te assusta. Eu sou parte do aqui. E aí já tem tanta coisa gritando que você não precisa de mais vozes. Eu preciso de vozes. Daí ou daqui. Mas que repitam, repitam, repitam. Vozes doces no meio desse peso. Que repitam para eu acreditar. Eu preciso de repetição para acreditar. Só que aqui já bagunçou tudo. Na loucura de sentir e calar, um eco. Eu quero um eco.

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Noturno, uma paixão

 Por Juliana

É de tirar o fôlego. De ficar preso na cadeira em vários momentos, por susto, surpresa, concentração, identificação, felicidade.

Pelo quinto ano seguido (viciada assumida), estive na terça-feira no teatro Dias Gomes pra assistir ao musical Noturno, do Oswaldo Montenegro, que em 2011 está completando 20 anos.

A cada vez que chego, ansiosa pra garantir meu bom lugar, passo os instantes que antecedem a primeira cena imaginando o que vai acontecer. Embora a montagem seja a mesma desde o primeiro, é como se meus olhos assimilassem cada uma de um jeito, sempre mais gostoso, inexplicavelmente novo.

E aí o corpo, a cabeça, a alma se desdobram em sensações diversas. É como passar várias vezes pelo mesmo lugar, mas em cada uma perceber que o cheiro, o chão, a caminhada.. mudam. E sempre mudam. Mas a gente também mudou, então os encontros sempre serão novos.

O que não vai mudar é minha vontade cada vez maior de me encontrar todo ano com o Noturno, como se eu tivesse um compromisso de devoção, que, aliás, cumpro com um prazer imensurável. Gosto de pensar que o Noturno também tem esse encontro anual comigo marcado. Assim como uma paixão rápida que deixa saudade durante um ano e depois se renova, fresca e perturbadora.

Não hesite. Vá. Se estiver sem companhia, cá estou eu doidinha pra ir mais uma vez, duas vezes, vinte anos… e vale!

  • Serviço
    Noturno, com direção de Deto Montenegro
    Teatro Dias Gomes – Rua Domingos de Moraes, nº 348 (fica no fundo de uma galeria, pode entrar sem medo)
    Todas as segundas e terças de Novembro, às 21h (abre por volta das 20h15, chegue antes conforme sua ansiedade, pois sempre forma fila)

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