Arquivo do mês: dezembro 2011

A vida do embrulho

Por Juliana

Chega o final do ano e todo mundo fala bastante de abrir presente. Até que soa simples. Difícil é abrir o coração. Soltar um laço de desentendimento exige um pouco mais de habilidade, ou uma forma mais sensível de ser capaz. Assumir a chama dos próprios sonhos e cuidar pra que permaneça acesa vai além do briho dos olhos de quem se depara com o perfume que queria, ali dentro da caixa.

Quem ganha um embrulho e deixa de lado, no canto, com medo de saber o que é? Presente de Natal todo mundo abre. O processo de abrir o coração pressupõe estar disposto a, querer, enfrentar, sentir as consequências (que não se mostram só boas, na maioria das vezes).

Enquanto o embrulho está feito, quietinho embaixo da árvore cheia de bolas brilhantes, reina a calmaria. Bastou sacudir, dar uma espiadinha, desfazer o laço e… pronto. Não volta mais a ser o mesmo pacote. Decidir abrir o coração requer um tanto mais de coragem, paciência, cautela. Como o embrulho colorido, o coração também não volta à forma original. Cada dono sabe o quanto isso envolve dor e medo.

Às vezes tem aquele nó cego no embrulho e a avó avisa de antemão “corta logo e joga fora, já estragou”. Sábias avós. Ou aquelas embalagens que a gente insiste em usar por três ou quatro anos seguidos, disfarçando com uma fita nova. Insistentes.

Os embrulhos vão nos acompanhar sempre. Agora, mais um Natal passou. E a gente deixa empacotado o que não consegue lidar ainda, sente um puta orgulho do que foi possível desenlaçar e espera, quem sabe, fevereiro chegar para nos cobrir ou despir de nossas máscaras de Carnaval.

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Fogo de Palha

Eu sou fogo de palha. “Se hoje sou estrela amanhã já se apagou”. Eu faço três dias de natação e paro. Volto e faço mais três. Ai a piscina do SESC entrou em reforma. Ok.

Eu faço artesanatos lindos. Hoje. Amanhã eu não quero nem ver. Depois de alguns dias e muitas encomendas. Volto. Faço tudo, entrego e paro mais uma vez, por eras.

Eu comecei a escrever um sem número de livros e contos. Estão todos muito bem guardados esperando minha morte para deixar minha família rica com meu livro póstumo. Por que eu sei que algúem vai achar aquilo genial. E se não achar, eu não quero estar viva para ver o vexame.

Eu ameaço. Hoje viro vegetariana. Hoje corto o cabelo. Hoje vou pedir um aumento. Hoje eu falo para ela tudo que eu penso dela. Hoje eu vou escrever um post sobre Paris para o blog.

Eu não escrevo. Não viro, não corto, não peço.

E o problema é só meu que continuo na mesma.

Mas hoje aconteceu uma coisa que eu não esperava, que eu não queria e que eu achava até “estranho”. Hoje ganhei o prêmio como funcionária do semestre na Associação onde trabalho. É. Isso mesmo. Eu ganhei um brinde e um vale presente por meus serviços. E quem me escolheu foram meus colegas de trabalho num sistema de notas, não minhas chefes.

Depois que recebi o prêmio e me desarmei de meus paradigmas fiquei bem feliz. Quem não gosta de ter seus trabalhos reconhecidos? Na hora fiquei surpresa, pois não esperava mesmo algo desse tipo, então nem pude dizer aos meus colegas que sem eles eu não teria feito tudo que me agradeceram por fazer na Associação.

Obrigada àqueles que acreditaram e confiaram em mim. Que venha 2012. E me mantenha longe do fogo fraco.

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Fica 2011

Por: Marianna Abdo 

Todo mundo pedindo para o ano acabar e eu desejando que ele dure um pouco mais e já explico. 

Na adolescência fui muito ligada ao Ano Novo. Acreditava que ele traria mudanças, que era a oportunidade de recomeçar, fazia mil promessas e não cumpria a metade, usava calcinha nova e pulava com o pé direito. Mas os três primeiros anos da minha idade adulta me fizeram perder um pouco dessas crenças. 

2010 estava no final e eu estava ali: acima do peso, completamente descrente, devastada por duas perdas e assim, resolvi trazer de volta meu lado adolescente, mas com uma dose de racionalidade. Fiz quatro promessas. Apenas quatro. Delas, três foram cumpridas já no primeiro semestre. A quarta? Bom, confesso que essa não era de coração. Hoje eu sei. 

No primeiro dia de 2011 senti que os 12 meses que viriam trariam mudanças. Olhei para os seus olhos e com uma convicção enorme disse: “As coisas vão mudar esse ano”. Para nós ou entre nós, as coisas não mudaram no ano novo, elas acabaram. E sim, o ano trouxe para mim, e quero e desejo que para você também, o que buscavámos e não poderíamos encontrar no outro. E já que estamos no fim do ano, fica aqui os meus (agora) sinceros votos de felicidades. 

Em 2011 soube o que era medo. MEDO, companheiro. Medo companheiro. E mesmo diante dele, não existiu o caos. E essa foi a minha maior conquista do ano. 

Mais uma guerra, mais uma luta pesada, inimigo conhecido e… mais uma vitória. Porque lutar com campeões, com guerreiros de vida e com amor só pode acabar em vitória, seja qual for o resultado do placar. 

E como se isso já não cantarolasse o suficiente “não se afobe não, que nada é pra já”, vem Ele e o abraço tão cheio de paz que inquieta e a intimidade nata e não construída. Mas essa é uma parte boa do ano e agora, de mim, que ainda não consigo escrever. Obrigada, danado. 

E quanta mudança no cenário! Rostos novos, vozes mais altas, risadas escandalosas, olhares inquietos, amigos, colegas, parceiros. 

E por esse novo repertório, escolhas, prazeres, cheiros, sabores, paixões e formatos que 2011 acaba no calendário, mas fica em mim.

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Do filme Estamos Juntos

Por: Marianna Abdo

“Será que o medo deixa as pessoas mais egoístas?”. Há meses li essa pergunta no mural do Facebook de uma pessoa muito especial (não só) pra mim. Foi justamente no momento em que todo esse medo começou e não hesitei em responder: Ficam.

Meses depois, em um sábado, escolhi alguns filmes para o fim de semana. Assim no plural. Em maior quantidade que eu daria conta. Como sempre. Como em tudo.

A escolha não foi aleatória. Segui o critério do choro. Se chorar lava a alva, eu precisava dessa limpeza.

Final de domingo e os filmes lá, intactos. Escolhi “Estamos Juntos”, filme brasileiro de Toni Venturi com Cauã Reymond, Leandra Leal e Nazareno Casero. Aparentemente, um roteiro clichê. Drama, sexo, paixão, drogas… aquelas coisas que os filmes brasileiros trazem. Carmem uma talentosa e jovem médica descobre uma doença em um momento de grande realização profissional e prazer na cama.

Sim, clichê, mas “será que o medo deixa as pessoas mais egoístas?”. Lá estava a pergunta de novo, nos primeiros segundos do filme. Lembrei da minha resposta “ficam” e a sustentei até, já no fim do filme, ouvir de Carmem uma resposta melhor: “Algumas coisas vão passar a vida inteira sendo perguntas”.

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Sai, gripe

Por Juliana

Se você não conhece alguém que fica revoltada quando está doente, muito prazer.

Sei lá o que acontece, parece que mudo de personalidade. Sinto vontade de chorar se alguém entra na minha frente no elevador, de arrancar a cabeça do repórter que nega minha pauta, de gritar “mundo, me abrace!”, de devorar a caixa gigante de ferrero rocher que comprei pro amigo-ladrão, de enfiar a cabeça na terra e só sair quando…

Pois é. Aquela frase de cartão de aniversário “Muita saúde, que o resto a gente corre atrás” faz muito sentido quando se está debilitado. Nada como tirar um pouco do pique pra gente perceber do que somos capazes no 100%.

Aí a amiga diz “tá sem apetite?” Nem isso de bom! A gripe me deixa com uma fome de hipopótamo (hipopótamo come muito? Sei lá, deduzi pelo corpitcho).

Hoje tá difícil, olha que isso sai poucas vezes da minha boca…

Mas amanhã é outro dia, não é assim que dizem? Que ele seja sem gripe.

 

 

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Iguais

Por: Marianna Abdo

Quem disse que porque somos adultos, deixamos de sentir como crianças? Em algumas situações não crescemos e isso fica claro quando somos magoados ou contrariados. Algumas coisas não mudam.

Gustavo, 5 anos, dividia com a prima a atenção da avó que mora longe. A situação era nova pra ele que tinha acabado de fazer uma viagem sozinho com a avó querida. Depois de tentativas frustradas de ganhar a atenção só pra ele, resolveu apelar para a bagunça. Correu pela casa, puxou o rabo o cachorro, respondeu para o avô e quando não tinha mais nada para fazer, assumiu: “Vocês querem saber a verdade? Eu vou falar, eu vou falar: eu estou com ciúme. É isso mesmo: ci-ú-me”.

Quem nunca arrumou a maior bagunça por sentir seu território ameaçado (para bancar a Leoa)? Quem já levantou discussões faraônicas quando na verdade o motivo de tudo era o danado do ciúme? Eu, ciumenta que sou, confesso que já fiz várias vezes, mas em poucas tive a coragem de assumir do Gustavo.

Outra criança, de aproximadamente 2 anos, chorava magoado pelas palavras duras que a mãe tinha dito em um vagão lotado do metrô. Aquele choro doído, lágrimas grossas, daqueles que doem até em quem vê.

De repente, esqueceu. As crianças sofrem demais e depois esquecem, como nós também esquecemos. Mas, a vontade de chorar ainda estava ali. Ele precisava de atenção e carinho. Então, procurou pelo corpo pequeno um motivo para justificar o choro que não cessava. Apontou para um pequeno ponto, que um dia foi um machucado, mas que hoje já é cicatriz. Desenterrou uma dor.

No sentir, somos todos iguais.

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Médico amigo

Por Juliana

Outro dia, num sábado qualquer, fui almoçar na casa dos meus avós, programa que faço bem menos do que gostaria. Depois de um delicioso peixinho frito com arroz, salada e batatinhas, meu avô segue para o sagrado cochilo da tarde e eu e a vovó engatamos um papo tão gostoso quanto o almoço.

Aqueles fofos são, na minha vida, as pessoas que melhor traduzem a palavra bondade. Por isso não consigo ficar tão brava com o peixe frito ou quando vejo na geladeira patês, mortadela e salame. Eu reclamo, eles sabem que faz mal, mas amoleço no “Juju, se a gente não comer mais nada vamos viver tristes o pouco que nos resta”. Argumento completamente aceito. Imagino que não é fácil.

A questão é que, na conversa, os olhinhos da minha avó brilhavam e eu descobri uma peça fundamental de mudança na rotina dela, o novo médico. A gente se depara com uns médicos muito estranhos hoje em dia, né! Em ambulatórios, consultórios, mesas de cirurgia. Apáticos, distantes. Há quem fale “mas o sujeito está lá pra ser médico e não ser simpático ou bacana”. Dá pra discordar facilmente pelos olhinhos da vovó.

Depois de anos visitando todas as especialidades possíveis, principalmente para tentar minimizar as dores nas costas e a insônia, ela encontrou num cardiologista homeopata uma inspiração.

“Ele falou, Juju, pra eu fazer hidroginástica”. E lá está ela toda semana com o maiô e a touquinha dentro da piscina. “Ele disse que preciso andar com a bengala pra não forçar as costas”. E ela usa diariamente, coisa que ninguém da família havia conseguido. “Ele falou pra eu ler esse livro”. Tradicionalmente católica e lendo um livro indicado pelo médico espírita sobre a vida de São Lucas. No mínimo curioso.

Vovó senta no sofá e mostra as toalhinhas que está bordando para os filhos do médico, imagino que com o mesmo cuidado e zelo com que é tratada todas as vezes que tem uma consulta. E ele, o médico, penso eu, deve olhar pra ela como quem sabe que a velhinha não vai querer nunca mais estar 100%, pois isso acabaria em não encontrar mais a inspiração que lhe faz tão bem.

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Arquivado em Juliana