Cola

Por: Marianna Abdo

Não sou uma otimista. Não vejo cor de rosa no que é cinza, mas sempre acho que dá para colar. Como tudo na vida isso tem dois lados: o bom é que quando vou embora minha alma está limpa, sei que fiz de tudo, testei no doente a droga mais moderna e o melcomlimão da vovó, saio e não olho para trás, ali dei tudo de mim, não era mais o meu lugar. O ruim é o desgaste dessa doação, é estar no 15º movimento da 3ª série do supino e tentar o 16º, é estar ali quando o caixão fecha, é ler 10 vezes o resultado da biópsia.

Quando eu era criança fabricava minha própria cola. Uma mistura de farinha, água e… tinha algo mais? Quando cresci tive que juntar ingredientes mais difíceis que a farinha vencida do armário: uma pitada de esperança, uma dose de otimismo, duas colheres de paciência e um coração inteiro para dar… amor.

E nessa de colar um dia o papel voou. Como colar algo que insiste em ir com o vento? A cola está pronta, o pincel com seu toque leve e a janela abriu, a brisa entrou, a folha voou.

Sai correndo, vai atrás, cai, esfola o joelho, sobe na escada para tentar alcançar… vai mais alto…

Ofegante, é hora de separar os ingredientes. O armário parece vazio, mas em algum lugar eles devem estar. Faz a mistura e cola os cacos.

Não se cola com cuspe.

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2 Comentários

Arquivado em Marianna

2 Respostas para “Cola

  1. Eliana Iorio Abdo Silva

    Textos sempre lindos e bem escritos, esse em Noite de Natal enche nosso coração de pensamentos, momentos e recordações….

  2. bel

    é difícil,mas é preciso! Feliz Natal, Mari!

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