O aniversário da vovó

Por Juliana

Às vezes te olho como quem relembra o próprio passado. Observo suas ruguinhas, tratadas aqui no diminutivo de tão delicadas que me parecem, e sinto o quanto somos jovens, mesmo com a distância de 50 anos entre nós.

Pensando bem, avós e netos não tem distâncias, apenas pequenos intervalos capazes de transmitir vida. Não importa muito se o vovô é bravo ou a vovó doce demais, nutrimos por eles sentimentos indefiníveis.

No eterno ditado “avós estragam”, você me ensinou que disciplina demais também é muito chato. E daí se o neto quebrou os dois braços pulando do muro enquanto passava férias na sua casa?  Marcas da vida, e disso você entende bem.

Na época da Páscoa, eu esperava ansiosamente pelos ovos feitos com tanto carinho por suas mãos já com ruguinhas delicadas, torcendo para o meu ser o do embrulho rosa. Acho que você não sabe, mas apesar de achar engraçado você dormir de boca aberta à tarde no sofá e depois não ter sono à noite, eu sempre soube que secretamente você guardava energias para amar mais ainda nossa família.

Já nos conhecemos assim, eu neta e você avó, talvez por isso não me lembro de você sem essas tais ruguinhas. Afinal, quando nasci, você já era avó de três e ainda viria a ser de mais dois. A cada neto, mais dobrinhas para testemunhar o tempo dedicado a nos ensinar, silenciosamente.

Dizem que, depois de alguns aniversários, voltarei a ser criança. Você deve estar feliz por isso, vovó! Para registrar essa transição mágica, não sai da memória um momento recente. Ao pensar no presente dos 79 aninhos, pediu um maiô da escola de hidroginástica. “Todas as alunas usam esse maiô, só eu ainda não tenho”.

Você merece todos os maiôs do mundo, contanto que eles se adaptem às minhas amadas ruguinhas.

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2 Comentários

Arquivado em Juliana

2 Respostas para “O aniversário da vovó

  1. Garibaldi Luciano Filho

    Parabéns pela sua neta Juliana, que ela continue sempre lembrando dessas ruguinhas, pois com seu exemplo com certeza ela também será uma boa avó. Garibaldi e Edy.

  2. Mayra Battilani

    Ju! Seu texto fez meus olhos “marearem” no escritorio, ao lado dos meus amigos belgas que tem uma dificuldade enorme em expressar sentimentos… Pensei muito na minha avo e em quantas lembrancas tenho dela e em como nao consigo imaginar a vida sem ela – suas docuras e reclamacoes..Obrigada pelo texto e pelas palavras que sempre tocam no lado que a Europa nao deixa tocar… um beijao!!!! Mayra

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