Experiência, sabedoria…

A voz dela e a entonação ficarão em minha memória por muito tempo, se Deus quiser. E acho que a ouvirei dizer isso muitas vezes ainda.

Praia, sol, chuva de tarde. Um fim de semana na praia que podia ter significado muito ou quase nada, só mais um?

A tia do meu namorado conversava com a gente antes do almoço. Ela tinha andado mal, pegou uma infecção de urina e teve que correr para um hospital público em b Bertioga pois nenhum particular atendia seu convênio.

– De que adianta a idade? De que adianta ficar velho? Nada. Só ficamos velho, ninguém nos ouve, não entendemos nada que se passa no mundo, ou entendemos pouca coisa. Dai, vem me falar de “experiência” e “sabedoria”… Pra quê? Pra que aprender tudo e quando vamos ensinar, usar nossa experiência, nossa sabedoria ninguém da bola! Os mais jovens acham que não falamos nada com nada, que não entendemos… Que no nosso tempo as coisas eram diferentes! Eram mesmo! Não tínhamos experiência, nem sabedoria…

Foi uma conversa casual, regada a risadas e beliscando comidinhas até todos voltarem da praia para almoçarmos. Mas em outras duas situações naqueles dois dias a Tia fez o mesmo comentário, após alguma ação de um de nós, os “jovens”:

– Viu, Izabel, experiência….sabedoria….

Aquilo ficou como tatuagem na minha cabeça. Não saiu mais e faz uma semana que todos os dias, em algum momento do dia eu penso nessas duas palavras e na entonação triste, porém irreverente que a Tia usou para lamentar aquilo que estava acontecendo e daqui para frente so iria piorar….E ela nem tem 50 anos!

Pensei nos meus avôs. Meu avó, a pessoa mais inteligente que conheci, que agora sofre e faz sofrer com o Alzheimer. De fato, não fala nada com nada. Mas quando eu nasci ele já era assim “velhinho” e eu já achava que ele não entendia as piadas, as novelas, as minhas histórias na escola. Mas ele entendia, hoje eu sei, só que era diferente. Era diferente das piadas na língua dele e da escola que ele frequentou na Itália. Só isso, diferente.

Minha avó também, apesar da idade avançadíssima cuida dele e das loucuras dele com a ajuda da minha mãe e do meu pai. Eu achava que ela não entendia que eu tinha amigas no colégio, ou que eu achava que sabia me cuidar sozinha (eu não sabia, acho que ainda não sei 100%…)

Que idiota, né? E olha que eles ensinaram muitas coisas para nós, apesar de nossa arrogância. Mas hoje, que eu entendo que eles tem muito mais a ensinar, eles estão confusos. Hoje que eu preciso, que eu faço perguntas diretas de “como fazer”, “onde foi”, “ainda temos” recebo respostas vazias, respostas a perguntas que não fiz, história nitidamente inventadas e o pior: exaustivamente repetidas.

Nossa, como é triste. De que adianta ficar velho?

Quem ler isso, por favor, aproveite a experiência e a sabedoria de quem ainda pode te responder e orientar….

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