Arquivo do mês: março 2013

Força e graça

Por Juliana

Terceiro semestre da faculdade. Desafio: entrevistar um familiar e escrever um perfil. Não sei se fiz certo e qual nota consegui, mas lembro perfeitamente de ter me emocionado várias vezes na breve conversa com minha avó paterna. Hoje revirando arquivos antigos no computador, encontrei esse texto e compartilho da forma como foi escrito, há 6 anos.

______________________________________________________________________

Ela nasceu em Portugal e veio para o Brasil em 1939 numa viagem de navio que durou um mês. Dona de bochechas vermelhas coradas do sol, Maria da Conceição Constâncio esconde o riso envergonhado ao confessar que já namorava antes dos quinze anos. Hoje, com 71, relembra quando andava de carroça nas ruas de terra da cidade de São Paulo. “Eu ia com meu pai para a plantação colher as verduras e depois vender no mercado municipal”.

Maria recorda de quando brincava com o irmão Jacinto durante a infância, colhendo frutas das árvores e correndo atrás das galinhas da chácara onde morava. “Uma vez eu e o Jacinto fomos pro mato procurar vagalumes e meu pai nos deu uma surra, nunca mais saímos do quintal”.

Certa vez, quando criança, ela estava com a mãe na costureira e se deparou com um aparelho de rádio. A surpresa foi tamanha que logo quis revelar o segredo daquela caixinha. “Eu me perguntava como o homem cabia lá dentro e fui procurar atrás pra tentar encontrá-lo”.

Aos dez anos, Maria ganhou a primeira boneca da mãe e aos dezessete teve o primeiro filho, Antonio. “Casei com dezesseis, quando o menino fez um ano meu marido morreu de nefrite”. Ela confessa que foi uma época muito difícil. “Fiquei revoltada e a única coisa que me fazia querer viver era o filho que ele tinha deixado”.

O olhar iluminado confirma o aprendizado e a forma diferente que encara as dificuldades hoje. “A vida foi me ensinando que não é tudo como a gente quer. O entendimento de que eu não era melhor do que os outros me ajudou”.

Com Alfredo, o segundo marido, ela ficou mais de vinte e cinco anos e teve quatro filhos. “E um adotivo, uma prima minha não tinha condições de criar e eu assumi”. Talvez por destino, o sonho de Maria desde menina era engravidar. “Acho que foi um dom de Deus”.

Dos olhos verdes rola uma lágrima ao falar da morte do neto Alessandro, assassinado há 10 anos. Pede um tempo para pensar e conta nos dedos os nomes dos que “ainda estão aqui”: Daniela, Leandro, Felipe, Gabriele, Juliana, Rafael, Lucas, Giulia, Fernanda, Viviane e Boni. “Será que esqueci algum?” E conta novamente.

Deixe um comentário

Arquivado em Uncategorized

Uma coisa por vez não existe

Por: Marianna Abdo

Agora ele decidiu ser namorado. Mas não meu namorado. Ele já foi estudante e quando foi passou nos vestibulares das melhores universidades do país. Ele também já foi padrinho e deu tanto, tanto amor. Quando foi filho a presença foi tanta que criou pais dependentes. Mas agora ele decidiu ser namorado. Não por excesso de amor. Só porque só pode ser algo. Só um algo.

“Uma coisa por vez”, ele grita para o mundo. Como se essa vida aqui permitisse isso.

Uma coisa por vez não existe nem no sexo quando tudo te invade e você não abre mão nem do cheiro, nem da pele, nem do olhar, nem dos gemidos, nem do gosto. Uma coisa por vez não existe nem na vitória quando há aplausos, abraços, inveja e a expectativa da próxima. Uma coisa por vez não existe nem no nascimento com a palmada, o choro, o banho e o seio.

Há que se viver com todas. Todas as alegrias e frustrações. Todas as manhãs de café, e-mails, cobranças, resultados, prazos. Há que se viver sendo tudo: profissional, filho, pai, homem, estudante, primo, amigo, padrinho. Há que se viver pra elas e não pra essa ou aquela.

“Uma coisa por vez não existe, meu amor”. Ouviu, entendeu e provou. E por isso foi embora. Foi ser só namorado. Não por falta de amor. Só porque só pode ser algo. Só um algo.

 

4 Comentários

Arquivado em Marianna, Uncategorized