Força e graça

Por Juliana

Terceiro semestre da faculdade. Desafio: entrevistar um familiar e escrever um perfil. Não sei se fiz certo e qual nota consegui, mas lembro perfeitamente de ter me emocionado várias vezes na breve conversa com minha avó paterna. Hoje revirando arquivos antigos no computador, encontrei esse texto e compartilho da forma como foi escrito, há 6 anos.

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Ela nasceu em Portugal e veio para o Brasil em 1939 numa viagem de navio que durou um mês. Dona de bochechas vermelhas coradas do sol, Maria da Conceição Constâncio esconde o riso envergonhado ao confessar que já namorava antes dos quinze anos. Hoje, com 71, relembra quando andava de carroça nas ruas de terra da cidade de São Paulo. “Eu ia com meu pai para a plantação colher as verduras e depois vender no mercado municipal”.

Maria recorda de quando brincava com o irmão Jacinto durante a infância, colhendo frutas das árvores e correndo atrás das galinhas da chácara onde morava. “Uma vez eu e o Jacinto fomos pro mato procurar vagalumes e meu pai nos deu uma surra, nunca mais saímos do quintal”.

Certa vez, quando criança, ela estava com a mãe na costureira e se deparou com um aparelho de rádio. A surpresa foi tamanha que logo quis revelar o segredo daquela caixinha. “Eu me perguntava como o homem cabia lá dentro e fui procurar atrás pra tentar encontrá-lo”.

Aos dez anos, Maria ganhou a primeira boneca da mãe e aos dezessete teve o primeiro filho, Antonio. “Casei com dezesseis, quando o menino fez um ano meu marido morreu de nefrite”. Ela confessa que foi uma época muito difícil. “Fiquei revoltada e a única coisa que me fazia querer viver era o filho que ele tinha deixado”.

O olhar iluminado confirma o aprendizado e a forma diferente que encara as dificuldades hoje. “A vida foi me ensinando que não é tudo como a gente quer. O entendimento de que eu não era melhor do que os outros me ajudou”.

Com Alfredo, o segundo marido, ela ficou mais de vinte e cinco anos e teve quatro filhos. “E um adotivo, uma prima minha não tinha condições de criar e eu assumi”. Talvez por destino, o sonho de Maria desde menina era engravidar. “Acho que foi um dom de Deus”.

Dos olhos verdes rola uma lágrima ao falar da morte do neto Alessandro, assassinado há 10 anos. Pede um tempo para pensar e conta nos dedos os nomes dos que “ainda estão aqui”: Daniela, Leandro, Felipe, Gabriele, Juliana, Rafael, Lucas, Giulia, Fernanda, Viviane e Boni. “Será que esqueci algum?” E conta novamente.

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