Arquivo do mês: março 2015

Precisamos falar sobre o câncer

Por: Marianna Abdo

Meu irmão morreu aos 7 anos, de câncer. Meu pai morreu 20 anos depois, de câncer. Antes que me perguntem se eu tenho medo de ter câncer, respondo: Sim, e você também deveria ter.

Gostamos de achar que estamos isentos do risco porque não temos um caso na família. Os tumores/lesões que atingiram a minha família não são hereditários. Fomos “vítimas” – entre aspas e por falta de uma palavra melhor, pois nunca fomos vítimas de nada – de uma infeliz coincidência, que reduziu minha família, já pequena, à metade.

Durante toda a minha vida presenciei minha mãe ouvindo – nunca de médicos – sobre o cuidado que ela deveria tomar para não perder outra filha de câncer. Uma crueldade de se dizer para alguém que já havia passado uma vez por essa dor. As boas intenções guardam uma grande tendência de serem cruéis.

Depois, durante os quase três anos de tratamento vividos pelo meu pai, novos questionamentos: “Teria sido ele o gene do mal que matou o filho?”. E como sofrimento pouco é bobagem, durante esses 10 meses de luto, ouvi novos alertas. Até o meu namorado ouviu um bem intencionado “cuidado, ela pode ter câncer”.

Pensei em escrever um texto raivoso sobre a falta de noção, de tato, de alcance e de humanidade das pessoas. Pensei em xingar muito no Facebook. Mas, passado o momento de indignação, pensei: “Marianna, perdoa-lhes, eles não sabem o que dizem”. E não sabem. Eu sei e minha mãe também.

Por isso, resolvi escrever esse texto para dizer que sim, eu tenho medo de ter câncer, mas você também deveria ter. Não um medo que te fizesse se preocupar com qualquer pinta ou nunca mais tomar sol. E sim um receio que te faça se cercar de alguns cuidados. Quais? Não sei. Mal a medicina sabe.

Eu fiz up grade do meu convênio após a morte do meu pai. Pago o dobro apenas para que ele cubra o hospital do câncer mais especializado do país.

Não sei se você vai parar de beber, de fumar, de comer fast food, se vai tirar as mamas como a Angelina Jolie ou vai pagar caros exames para mapear os riscos. Não deixe a preocupação te enlouquecer, afinal pessoas que nunca acenderam um cigarro já tiveram câncer no pulmão. Mas não se sinta imune. Não ache que está livre apenas pela falta de casos na família. Entenda: o câncer é a doença da nossa época.

E, por favor, não joguem o peso da culpa nos familiares. Eles já descobriram o câncer da pior forma, não precisam ouvir de vocês. Muitos já sabem que a doença pode ser traiçoeira. Deixem os alertas para os médicos, se eles julgarem necessário. Eu nunca ouvi de nenhum.

Pois é, você deve estar pensando: Ué, mas o título desse texto não é “Precisamos falar sobre o câncer?”. É e precisamos. Ela não deve ser mais aquela doença não dita nos lares. Mas precisamos falar sem a arrogância dos que se julgam isentos. Nem os oncologistas abordam o tema assim, não os bons.

E enquanto falamos, vamos vivendo. Afinal, é o que nos resta.

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