Nossas conversas assobiadas

Por: Marianna Abdo

Durante muito tempo o que não falávamos em palavras, falávamos em assobios. Era um jeito de termos mais uma linguagem só nossa, embora, nossos olhares já dessem conta disso. Talvez fosse só um jeito de rirmos juntos. Não sei.

Eu “dizia” algum som parecido com “fiu” ao entrar em casa e você respondia de volta “fiu”. Estabelecemos algo como um “ah!” para as vezes que queríamos dizer: “Sim, estou aqui, mas é só isso. Não quero falar mais nada”. E estava tudo bem.

Em nossos muitos silêncios no sofá e longas esperas pela mamãe, era só passar das 20h para você assobiar: “Cadê a Fofolete?”. Era seu jeito de dizer que ela estava demorando e você tinha notado.

Não tínhamos muitas frases porque nunca gostamos de falar muito mesmo. E muitas delas buscavam apenas o riso, como quando eu “dizia”: “Papaizinho querido, papaizinho meu amor”. E você respondia de volta assobiando: “O que você está quereeendooo?”. E puxava a vogal final até quase perder o ar, virava os olhos e tremia a cabeça. Eu não queria nada, só ver essa cena e rir com você.

Sempre terminava em risada e com um novo assobio pedindo “cheiro, cheiro”. Ao invés de te oferecer minha cabeça eu levantava o meu pé a ponto de quase encostar no seu nariz. Quando eu ficava no quarto estudando ou trabalhando, você assobiava da sala, em tom de lamento: “Ei, Marianna, vem cá. Vem cá, Marianna, vem cá!!”.

Se eu ficava muito tempo sem assobiar, você logo reclamava. Dizia com voz e firmeza que eu estava deixando de fazer as coisas boas.

Mas aí você parou de assobiar. Parou porque tínhamos que poupar o pouco ar que você tinha no peito e duas frases já te cansavam. No começo você até tentou e, por dentro, eu ficava apreensiva achando que isso podia piorar as coisas. Mas a gente queria rir e, meu Deus, como a gente precisava rir.

Até que a casa se encheu de cilindros de oxigênio e você parou de vez.  Nunca falamos disso, mas eu notei. Foi na mesma época que você também parou de buscar o jornal para mim no portão do prédio. Mais uma das coisas boas que a doença foi tirando da gente e eu derramava no choro do banho, enquanto você serenamente aceitava.

Hoje lembrei das nossas conversas assobiadas. Abri a porta de casa e disse “fiu” para o silêncio cheio de você. Detalhes tão pequenos de nós dois, já dizia Robertão.

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