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Precisamos falar sobre o câncer

Por: Marianna Abdo

Meu irmão morreu aos 7 anos, de câncer. Meu pai morreu 20 anos depois, de câncer. Antes que me perguntem se eu tenho medo de ter câncer, respondo: Sim, e você também deveria ter.

Gostamos de achar que estamos isentos do risco porque não temos um caso na família. Os tumores/lesões que atingiram a minha família não são hereditários. Fomos “vítimas” – entre aspas e por falta de uma palavra melhor, pois nunca fomos vítimas de nada – de uma infeliz coincidência, que reduziu minha família, já pequena, à metade.

Durante toda a minha vida presenciei minha mãe ouvindo – nunca de médicos – sobre o cuidado que ela deveria tomar para não perder outra filha de câncer. Uma crueldade de se dizer para alguém que já havia passado uma vez por essa dor. As boas intenções guardam uma grande tendência de serem cruéis.

Depois, durante os quase três anos de tratamento vividos pelo meu pai, novos questionamentos: “Teria sido ele o gene do mal que matou o filho?”. E como sofrimento pouco é bobagem, durante esses 10 meses de luto, ouvi novos alertas. Até o meu namorado ouviu um bem intencionado “cuidado, ela pode ter câncer”.

Pensei em escrever um texto raivoso sobre a falta de noção, de tato, de alcance e de humanidade das pessoas. Pensei em xingar muito no Facebook. Mas, passado o momento de indignação, pensei: “Marianna, perdoa-lhes, eles não sabem o que dizem”. E não sabem. Eu sei e minha mãe também.

Por isso, resolvi escrever esse texto para dizer que sim, eu tenho medo de ter câncer, mas você também deveria ter. Não um medo que te fizesse se preocupar com qualquer pinta ou nunca mais tomar sol. E sim um receio que te faça se cercar de alguns cuidados. Quais? Não sei. Mal a medicina sabe.

Eu fiz up grade do meu convênio após a morte do meu pai. Pago o dobro apenas para que ele cubra o hospital do câncer mais especializado do país.

Não sei se você vai parar de beber, de fumar, de comer fast food, se vai tirar as mamas como a Angelina Jolie ou vai pagar caros exames para mapear os riscos. Não deixe a preocupação te enlouquecer, afinal pessoas que nunca acenderam um cigarro já tiveram câncer no pulmão. Mas não se sinta imune. Não ache que está livre apenas pela falta de casos na família. Entenda: o câncer é a doença da nossa época.

E, por favor, não joguem o peso da culpa nos familiares. Eles já descobriram o câncer da pior forma, não precisam ouvir de vocês. Muitos já sabem que a doença pode ser traiçoeira. Deixem os alertas para os médicos, se eles julgarem necessário. Eu nunca ouvi de nenhum.

Pois é, você deve estar pensando: Ué, mas o título desse texto não é “Precisamos falar sobre o câncer?”. É e precisamos. Ela não deve ser mais aquela doença não dita nos lares. Mas precisamos falar sem a arrogância dos que se julgam isentos. Nem os oncologistas abordam o tema assim, não os bons.

E enquanto falamos, vamos vivendo. Afinal, é o que nos resta.

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Para papai e suas músicas

Por: Marianna Abdo

Ouço suas músicas para ficar mais perto de você.
Ouço suas músicas para lembrar da sua posição no sofá, batucando com a mão direita no joelho lustrado (esse brilho sempre me impressionou) e dizendo que algumas letras são tão lindas que dão até vontade de sofrer.
Ouço suas músicas para lembrar de todas as vezes que dizia meu nome depois que Caetano cantava “você é linda”.
Ouço Bruno e Marrone porque “só eu sei o que é que eu faço com essa falta de você”, pai.
Ouço suas músicas para lembrar de quando me disse que casaria com a mamãe de novo e eu pensei se era a música que tocava que te fez pensar nisso.
Ouço os CDS riscados para recordar das fitas quebradas pelo chão da casa – uma delas me rendeu um corte no pé – e lembrar que você não era assim tão bom.
Ouço suas músicas porque eram enquanto elas tocavam que tivemos as melhores conversas e os mais lindos silêncios.
Ouço suas músicas porque tocava uma delas quando você disse “que merda! Achei que ele seria seu último namorado” e acabou com o pouco de força que eu tinha.
Ouço Dominguinhos e “reparo naquela estrada, que distância nos levará”. E sei que você era o próprio Juca Pitanga Santeiro que “não perguntou pra ninguém o que era bom/
Se mandou pra capital/Não tinha medo de nada/Coragem sem freio/Filho do norte, da sorte, da fome e do meio”.
Ouço suas músicas que não são mais de Dominguinhos, Erasmo, Roberto, Zé Ramalho, Raul, Renato ou Zeca. Ouço porque são suas e as dores do meu coração de filha e os CDS agora todos meus.
Ouço suas músicas por todas as vezes que você as deixou de ouvir porque eu sofria de amor.

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Desde que você foi embora

Por: Marianna Abdo

Desde que você foi embora eu não chamo mais a mamãe pelo apelido, pois não suporto não ouvir sua risada ao fundo.

Desde que você foi embora eu não vou mais ao ballet porque na volta ninguém vai me perguntar “como foi seu treino?”.

Desde que você foi embora eu disco seu número quando algum famoso morre.

Desde que você foi embora eu não sei o que está acontecendo na política e nem nos negócios do Eike Batista, que você chamava de Elke.

Desde que você foi embora eu não vejo ninguém espiar da janela quando alguém me busca em casa.

Desde que você foi embora eu não encontro um olhar cúmplice quando alguém chato telefona para a mamãe ou uma visita chega sem avisar.

Desde que você foi embora eu não vejo a TV mudar de canal quando aquele personagem chato aparece.

Desde que você foi embora eu não sei quem estará no Roda Viva da TV Cultura.

Desde que você foi embora eu não ouço o cardápio que me aguarda na cozinha enquanto tiro os sapatos ao chegar em casa.

Desde que você foi embora eu não ouço ninguém dizer “filha linda, maravilhosa, eterna e única”.

Desde que você foi embora eu não tenho quem me conte a novela nos dias que não volto para casa.

Desde que você foi embora eu não tenho quem faça cafuné ou esquente meus pés.

Desde que você foi embora eu não pergunto mais se a minha bunda está marcando na calça.

Desde que você foi embora eu sinto vontade de dormir no seu guarda roupa que ainda guarda o cheiro seu.

Desde que você foi embora eu não poupo mais o mundo da minha sinceridade que parece ter somado a sua.

Desde que você foi embora eu vejo você em tudo que é lindo.

Desde que você foi embora eu não tenho de quem falar quando não quero falar de mim.

Desde que você foi embora eu não lembro de tomar minha vitamina e por isso as cápsulas mofaram no frasco.

Desde que você foi embora eu te desobedeço e só penso besteira enquanto dirijo.

Desde que você foi embora eu torço para que o boné que você deixou no banco de trás do meu carro não perca seu cheiro.

Desde que você foi embora eu não encontro mais seu terço no sofá.

Desde que você foi embora eu tenho medo da mamãe casar de novo.

Desde que você foi embora eu ouço a música Emoções todos os dias pela manhã e choro.

Desde que você foi embora eu não encontro mais a toalha de rosto do banheiro ensopada.

Desde que você foi embora eu imito o seu jeito de acariciar o cachorro pra ver se ele fica menos triste.

Desde que você foi embora eu chamo o cachorro de “Milico” como você fazia e ele abana o rabo.

Desde que você foi embora eu não cancelei seu celular.

Desde que você foi embora eu não deletei sua conta no Facebook.

Desde que você foi embora eu acordo durante a noite esperando ouvir sua tosse.

Desde que você foi embora eu descobri que o diafragma é o músculo das emoções e pode doer muito.

Desde que você foi embora eu tento me convencer que você foi embora.

 

 

 

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Sobre as de 20 e poucos

Por: Marianna Abdo

Não que eu tenha saído dessa faixa etária há tanto tempo, mas já não tenho a ousadia das meninas/mulheres de 20 a 23 anos. Pulei para a turma dos “quase 30” há quatro meses, quando completei 26 e sei que corro o risco de parecer ridícula ou deprimida ao escrever sobre as minhas quase pares.

A real é que a ousadia das nascidas nos anos 90 vinha me incomodado. Primeiro, usei todos os termos chulos do universo feminino para designá-las: vacas e biscates são meus preferidos (embora, em termos de animais propriamente ditos, eu prefira vacas a galinhas). Depois, lembrei dos meus 20 e poucos.

Enquanto hoje prefiro ser caçada (desculpem, feministas), aos 20 fui uma caçadora: deixava recados explícitos nas redes sociais, chamava para sair caras comprometidos (foi mal), pedia em namoro e dizia “eu te amo” sempre antes deles. Um dia, liguei pra atual e contei todas as vezes que ele passou na minha casa enquanto ela fazia plantão. Em detalhes. Hoje, pode até acontecer, mas eu não conto.

Aos 26, sou mais sutil. Às vezes tanto que as minhas “indiretas” soam como um bom dia de elevador. Hoje sou uma mulher inbox que nunca – ou quase – vai escrever um simples “lindo” na timeline de alguém que não está comigo.

Fiquei mais sem graça? Não sei. Prefiro pensar que hoje me jogo em piscinas que sei que estão abertas e dão pé pra mim. Nessas, desfilo de biquíni branco PP e até faço topless. Enquanto isso, visto meu maiô pretinho e tiro a canga com calma.  

 

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Enterro em Nova Iorque

Por: Marianna Abdo

Te enterrei em Nova Iorque, meu amor. Ali entre a Times Square e o Imagine do Central Park. Entre dois pontos distantes porque o amor era grande demais.

Um enterro a sua altura e tão caro quanto esse amor foi pra mim.

Te enterrei em Nova Iorque, meu amor. Na cidade do caos, da bipolaridade, da loucura, da beleza, da alegria. Na cidade que se esconde no espetáculo, na multidão, nos dispersos. Bem como você.

Te enterrei no dia do amigo que sempre achei ser nosso dia. O último engano desse amor.

Fui espalhando suas cinzas aos poucos. Um tanto nas flores do mercado pelas rosas que me deu tardiamente. Mais um tico nas lojas dos museus que você me deixava ver com paciência. Um pouco entre os casais que discutiam a relação pelas DRs que não tivemos. Mais um pouquinho nas lojas de produtos geek que já não me lembram você.

Só não te deixei nos lugares que escolhi para mim.

Te enterrei em nove partes, o número de meses desse luto. Engraçado como nascer e morrer podem levar o mesmo tempo.

Te enterrei como criei a imagem que tinha de você: tudo bonito, no meu tempo, ao meu modo e sem sermão de padre.

Se terá missa, ainda não sei. Mas o enterro acabou

No final fiz uma placa bonita, dessas que têm por aqui e escrevi:

“Encontre a paz

Com carinho,

Seu equívoco”

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Mulher timeline versus mulher inbox

Por: Marianna Abdo

As mulheres se vestem para as outras e postam para as outras. Exagero? Levante o polegar a mulher que não liga para o facebook dele (s). Todas ligam, mas nem todas curtem.

É a escolha entre ser uma mulher timeline ou uma mulher inbox. Entre ser a que dá o primeiro like em qualquer coisa que ele posta – de comentários de futebol à foto do cachorro – ou a que manda um singelo “psiu” inbox no fim do dia. É o ser ou não ser da fêmea de hoje.

Taguear no primeiro check-in é o mesmo que transar no primeiro encontro: algumas fazem outras não.

A mulher timeline quase nunca faz comentários inteligentes. Não por preguiça ou incapacidade, mas para ganhar tempo e ser a primeira a comentar. Já apelidei uma delas de “mulher coração” que era o emotion que ela usava para comentar absolutamente tudo que meu amigo postava. Ele cansou, mas deve ter quem gosta. É a lei da oferta e da procura.

Às vezes, a mulher timeline escreve piadas internas que nem o rapaz entende. E aí não vem a resposta ou vem um “oi?”. Judiação!

Mas se tem uma coisa que ela consegue é intrigar. Digo isso porque já encanei muito com curtidas e comentários constantes, enquanto a verdadeira biscate pretendente estava em uma ligação interurbana nas chamadas recebidas no celular dele.

A mulher timeline pode ser uma isca de borracha, enquanto a minhoca gordinha está na caixa de entrada das mensagens de texto.

A fêmea timeline também pode afugentar. Quer desgosto maior que comentar um post – publicado há segundos – que ela já comentou? Dá preguiça e dó. Pior ainda quando você se arrisca e ela curte o seu comentário também. É urinar no poste.

E aqui fica meu pedido para os machos: conta pra nós, qual seu tipo de mulher?

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No começo ou no fim, faça o que tem vontade

“Eles achavam que ela estava maluca, ridícula. Ela teria pensado a mesma coisa, se fosse uma delas se consumindo de dor. Um coração partido é engraçado para todo mundo, menos para quem está com ele partido” (A Trama do Casamento – Jeffrey Eugenides)

Por: Marianna Abdo

“Não liga pra ele porque ele vai achar que você está sofrendo”, ouvi uma amiga aconselhar a outra no metrô.

Senti aquele arrepio na espinha que sinto todas as vezes que ouço essas dicas prontas para fins de relacionamento. Olhei pra coitada da receptora e vi que o cara não estaria errado se pensasse que ela estava sofrendo. Tudo nela era sofrimento: os ombros caídos que o pé na bunda causa, as olheiras e bolsas logo abaixo dos olhos tristes, o cabelo sujo de quem se esforçou tanto pra levantar da cama que esqueceu do shampoo.

“Você precisa dar espaço, ele precisa sentir sua falta”.

Que espaço, Jesus? Espaço é o buraco imenso que estava no peito daquela menina. Espaço era a marca de sol no anelar direito da zuada aliança de prata que ela devia usar. Espaço era o vazio na cama de solteira. Espaço é o que ela não teria se engolisse tudo que queria dizer. Engolir, guardar, trancar não dá espaço para a paz.  

Sempre fui contra esperar o dia amanhecer para fazer as pazes. Na minha cabeça, uma noite de bunda virada não esfria a cabeça, esfria o cuidado, a relação. Faça as pazes antes de dormir. Ou pelo menos tente. Não passe a noite ensaiando no espelho o que você vai dizer com os olhos inchados de chorar, só porque te falaram que não há nada como “um dia após o outro”.

“Mas eu queria dizer o quanto ele está fazendo falta pra mim, que eu ainda o amo, que podemos ser felizes juntos”.
“Amiga, olha a dignidade. Você precisa se preservar”.

Nessas alturas eu já queria gritar. No amor não existe a palavra preservar. O apaixonado não preserva nem o meio ambiente dirigindo quilômetros, pra comer um pedaço de pizza em uma padaria e voltar em uma hora. O amor não preserva nem o amor, quanto mais o corpo, a dignidade, a honra.

Queria dizer para ela que sou a favor de fazer o que der vontade até passar a régua. O que importa ele achar que você está sofrendo quando você está sofrendo? O que importa ele achar que você está na prateleira esperando ele voltar quando sua poltrona realmente é a prateleira? Sou a favor de fazer o que der vontade mesmo que isso seja ser a louca.

O único conselho que eu vejo como certo no fim de um relacionamento é esse: faça o que tem vontade. Se essa vontade é se recolher e nunca mais olhar para o individuo: faça. Se for o contrário, se joga.

Quem é amigo tem que saber que o outro precisa passar por isso protegido ou não. Quem é amigo tem que respeitar a vontade do outro. Quem é amigo tem que dar colo sem julgamento.

Amiga, fuck se a atual vai te chamar de coitada, frustrada, acabada, mal comida e o diabo. Fuck o que ele vai pensar. Quem parte um coração, tem que saber que partiu um coração. 

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