Sobre as de 20 e poucos

Por: Marianna Abdo

Não que eu tenha saído dessa faixa etária há tanto tempo, mas já não tenho a ousadia das meninas/mulheres de 20 a 23 anos. Pulei para a turma dos “quase 30” há quatro meses, quando completei 26 e sei que corro o risco de parecer ridícula ou deprimida ao escrever sobre as minhas quase pares.

A real é que a ousadia das nascidas nos anos 90 vinha me incomodado. Primeiro, usei todos os termos chulos do universo feminino para designá-las: vacas e biscates são meus preferidos (embora, em termos de animais propriamente ditos, eu prefira vacas a galinhas). Depois, lembrei dos meus 20 e poucos.

Enquanto hoje prefiro ser caçada (desculpem, feministas), aos 20 fui uma caçadora: deixava recados explícitos nas redes sociais, chamava para sair caras comprometidos (foi mal), pedia em namoro e dizia “eu te amo” sempre antes deles. Um dia, liguei pra atual e contei todas as vezes que ele passou na minha casa enquanto ela fazia plantão. Em detalhes. Hoje, pode até acontecer, mas eu não conto.

Aos 26, sou mais sutil. Às vezes tanto que as minhas “indiretas” soam como um bom dia de elevador. Hoje sou uma mulher inbox que nunca – ou quase – vai escrever um simples “lindo” na timeline de alguém que não está comigo.

Fiquei mais sem graça? Não sei. Prefiro pensar que hoje me jogo em piscinas que sei que estão abertas e dão pé pra mim. Nessas, desfilo de biquíni branco PP e até faço topless. Enquanto isso, visto meu maiô pretinho e tiro a canga com calma.  

 

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Enterro em Nova Iorque

Por: Marianna Abdo

Te enterrei em Nova Iorque, meu amor. Ali entre a Times Square e o Imagine do Central Park. Entre dois pontos distantes porque o amor era grande demais.

Um enterro a sua altura e tão caro quanto esse amor foi pra mim.

Te enterrei em Nova Iorque, meu amor. Na cidade do caos, da bipolaridade, da loucura, da beleza, da alegria. Na cidade que se esconde no espetáculo, na multidão, nos dispersos. Bem como você.

Te enterrei no dia do amigo que sempre achei ser nosso dia. O último engano desse amor.

Fui espalhando suas cinzas aos poucos. Um tanto nas flores do mercado pelas rosas que me deu tardiamente. Mais um tico nas lojas dos museus que você me deixava ver com paciência. Um pouco entre os casais que discutiam a relação pelas DRs que não tivemos. Mais um pouquinho nas lojas de produtos geek que já não me lembram você.

Só não te deixei nos lugares que escolhi para mim.

Te enterrei em nove partes, o número de meses desse luto. Engraçado como nascer e morrer podem levar o mesmo tempo.

Te enterrei como criei a imagem que tinha de você: tudo bonito, no meu tempo, ao meu modo e sem sermão de padre.

Se terá missa, ainda não sei. Mas o enterro acabou

No final fiz uma placa bonita, dessas que têm por aqui e escrevi:

“Encontre a paz

Com carinho,

Seu equívoco”

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Mulher timeline versus mulher inbox

Por: Marianna Abdo

As mulheres se vestem para as outras e postam para as outras. Exagero? Levante o polegar a mulher que não liga para o facebook dele (s). Todas ligam, mas nem todas curtem.

É a escolha entre ser uma mulher timeline ou uma mulher inbox. Entre ser a que dá o primeiro like em qualquer coisa que ele posta – de comentários de futebol à foto do cachorro – ou a que manda um singelo “psiu” inbox no fim do dia. É o ser ou não ser da fêmea de hoje.

Taguear no primeiro check-in é o mesmo que transar no primeiro encontro: algumas fazem outras não.

A mulher timeline quase nunca faz comentários inteligentes. Não por preguiça ou incapacidade, mas para ganhar tempo e ser a primeira a comentar. Já apelidei uma delas de “mulher coração” que era o emotion que ela usava para comentar absolutamente tudo que meu amigo postava. Ele cansou, mas deve ter quem gosta. É a lei da oferta e da procura.

Às vezes, a mulher timeline escreve piadas internas que nem o rapaz entende. E aí não vem a resposta ou vem um “oi?”. Judiação!

Mas se tem uma coisa que ela consegue é intrigar. Digo isso porque já encanei muito com curtidas e comentários constantes, enquanto a verdadeira biscate pretendente estava em uma ligação interurbana nas chamadas recebidas no celular dele.

A mulher timeline pode ser uma isca de borracha, enquanto a minhoca gordinha está na caixa de entrada das mensagens de texto.

A fêmea timeline também pode afugentar. Quer desgosto maior que comentar um post – publicado há segundos – que ela já comentou? Dá preguiça e dó. Pior ainda quando você se arrisca e ela curte o seu comentário também. É urinar no poste.

E aqui fica meu pedido para os machos: conta pra nós, qual seu tipo de mulher?

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A paz e a cachaça de Maria Izabel

mi1 mi2Por Juliana

Bastou uma pergunta na primeira colorida loja de doces e bebidas de Paraty. “O alambique da Maria Izabel está aberto para visitação?” A resposta veio em forma de número de celular: é preciso verificar com antecedência se ela está em casa para receber os curiosos turistas.

Entre o emblemático rótulo da garrafa e a personificação da dona da única cachaça da cidade produzida artesanalmente do início ao fim, a imaginação corre. Como seria essa mulher?

Depois de 5km na estrada, um trecho de terra batida em meio à vegetação e duas bifurcações, alguns carros estacionados indicam a chegada ao destino. Não há registro de portões. Apenas fica na memória um encantamento desde o início com a paisagem que se forma. À esquerda, o maquinário dentro de uma pequena construção de madeira denuncia o engenho. Bem abaixo, outra construção que mais lembra um sítio recebe algumas cadeiras e mesinha rústicas no gramado brindado pelo mar de Paraty. Entre as duas, algumas grandes janelas e a porta encostada mostram o caminho de bom papo e risadas.

Cabelos compridos pretos e brancos se ajeitam numa longa trança deixada de lado. A barra da calça dobrada mostra os pés descalços, apesar do dia frio e úmido. Sentada numa roda entre brasileiros e estrangeiros, Maria Izabel explica pacientemente a diferença das cachaças que ela mesma engarrafa. A voz suave e doce, o sorriso sereno e a paz transbordada a cada palavra conquistam no primeiro contato: quem passa por aquela porta está fadado a sair com brilho nos olhos.

O pequeno grupo se dissipa para dar vez a nossa ansiedade. Izabel caminha descalça nos levando em seu engenho e explica, pausadamente, o processo de fabricação que repete há 16 anos. Fico imaginando quantas vezes ela já repetiu aquele passo a passo, com respostas simples e bonitas às mesmas dúvidas e curiosidades. E, mesmo assim, recebe com alegria e prazer os que também demonstram um prazer sem igual por lhe encontrar pessoalmente. Com a ajuda de poucos funcionários, ela mesma cuida do corte da cana que cresce em sua propriedade, produz o fermento e, deitada numa rede, supervisiona o processo de destilação no alambique.

Rodeados pelos barris onde a bebida é armazenada – nada é engarrafado em menos de um ano – descobrimos que a linda imagem do rótulo foi produzida pelo designer australiano Jeff Fisher, presente da então vizinha Liz Calder, editora inglesa idealizadora da Flip. Corações desenhados pelas mãos de Izabel em alguns barris indicam safras pra lá de especiais.

Maria Izabel, não sei o sobrenome, mas é daquelas pessoas que a gente pensa que já conhecia. Diferente da velhinha gordinha e bonachona da minha fértil imaginação, mas extremamente similar à imagem de mulher forte e sensível que desde o começo se formou. Quem hoje em dia passa o número do celular para desconhecidos e diz “Pode vir, estou em casa.”?

Um ser humano capaz de flutuar pelas lembranças dos pouco mais de 60 anos de vida com a leveza de poucos. Conhecedora do que faz, orgulhosa do passado e capaz de assumir as agruras da realidade e escrever a própria história. Enquanto oferece as variações de cachaças para nosso deleite, degustamos também um pouco dos fatos que a fizeram estar ali. Maridos, filhos, ideias, conquistas, tristezas. Da boca de turistas ávidos das grandes cidades, uma pergunta clichê: “Você nunca pensou em exportar?”

E a resposta à altura: “Muito trabalho. Prefiro cuidar do que é do meu tamanho. Tenho minha casinha na beira do mar e não gasto dinheiro com sapato. Cachaça, quando bebo, quero que seja boa. Então eu mesma faço.” Uma leve risada acompanha.

Poderia não ser a cachaça, mas jamais deixaria de ser a inesquecível Maria Izabel e sua voz calma e doce, capaz de fazer os olhos brilharem com a simples lembrança de quem um dia esteve lá e fez um pouco parte do mundo dela.

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Linha Tênue

Dizem que existe uma linha tênue entre o amor e o ódio. Dizem que esses seriam os sentimentos mais próximos e mais extremos ao mesmo tempo. Eu acredito que existe uma linha tênue em tudo que nos somos, fazemos e acreditamos.

Existe, por exemplo, uma linha tênue entre contar um história e fofocar. Pra cá, é só contar um causo, seu ou de alguém próximo, mesmo algo bem bizarro que aconteceu com o amigo, da namorada do primo do seu vizinho.

Pra lá está aquela pontinha de maldade de todos nós, pessoas legais, jovens, descoladas, que pagamos nossos impostos, compramos bala no farol, chocolate no trem e ainda ajudamos velhinhas a atravessar a rua, temos. Aquela pontinha de maldade de contar, ou pior, recontar aquele comentário desnecessário que alguém fez e já virou motivo de falação por trás da pessoa.

Existe uma linha tênue entre a amizade e o coleguismo. Do lado de cá, aquele perdão automático, aquela franquesa, aquela mania de mesmo no terror ver graça em tudo e dar um jeito em tudo.

Do lado de lá, o fato de só lembrar quando precisa, só chamar quando não tem jeito, só conversar quando está de bom humor. A arte de suportar as pessoas é a tinha tênue. Colega você suporta, amigo você é. E você também pode ser amigo de uns, ser colega de outros, entenda, não dá para ser amigo de todo mundo.

Existe também, meus caros e minhas caras, a linha tênue entre o líder e o chefe. É minha gente, não existe chefe só no trabalho, e não existe líder só na queimada (aquele jogo que a gente tinha que queimar, ou proteger, a abelha rainha). Apesar de acreditar muito na anarquia como modo de organizar as coisas, líderes são bem-vindos para mim. Principalmente quando todos tem um chefe, e seus chefes tem um chefe e assim por diante. Não dá, pelo menos não agora, para anarquizar com um setor, liderar outro e chefiar outro. Ou é tudo no mesmo padrão ou não é padrão nenhum.

Mas voltando a linha tênue, não vou ficar explicando as diferenças tênues entre líder e chefe, podem procurar qualquer matéria da Você S/A que lá tem dúzias e dúzias de matérias sobre isso.

Onde mais há uma linha tênue? Ah! Entre a brincadeira e a xacota, entre não poder fazer e fazer corpo mole, entre permitir e ignorar.

Tem uma frase que uma amiga (que até hoje me inspira com suas atitudes) disse certa vez e eu odiei, afinal, a carapuça serviu e quando carapuça serve você deixa de amar e passa a odiar. Uma frase bíblica do Apocalipse, que, veja só, é a linha tênue entre o céu e a terra. O Juízo final.

“Seja quente, ou seja frio. Se for morno, te vomito” Apocalipse 3:15-16

Traduzindo, tome partido, saia de cima do muro, da linha tênue. Seja uma coisa, ou seja outra. Pode até mudar de ideia no meio ou no fim do percurso. Mas, por favor, não seja morno.

valores invertidos
Achamos a foto aqui.

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No começo ou no fim, faça o que tem vontade

“Eles achavam que ela estava maluca, ridícula. Ela teria pensado a mesma coisa, se fosse uma delas se consumindo de dor. Um coração partido é engraçado para todo mundo, menos para quem está com ele partido” (A Trama do Casamento – Jeffrey Eugenides)

Por: Marianna Abdo

“Não liga pra ele porque ele vai achar que você está sofrendo”, ouvi uma amiga aconselhar a outra no metrô.

Senti aquele arrepio na espinha que sinto todas as vezes que ouço essas dicas prontas para fins de relacionamento. Olhei pra coitada da receptora e vi que o cara não estaria errado se pensasse que ela estava sofrendo. Tudo nela era sofrimento: os ombros caídos que o pé na bunda causa, as olheiras e bolsas logo abaixo dos olhos tristes, o cabelo sujo de quem se esforçou tanto pra levantar da cama que esqueceu do shampoo.

“Você precisa dar espaço, ele precisa sentir sua falta”.

Que espaço, Jesus? Espaço é o buraco imenso que estava no peito daquela menina. Espaço era a marca de sol no anelar direito da zuada aliança de prata que ela devia usar. Espaço era o vazio na cama de solteira. Espaço é o que ela não teria se engolisse tudo que queria dizer. Engolir, guardar, trancar não dá espaço para a paz.  

Sempre fui contra esperar o dia amanhecer para fazer as pazes. Na minha cabeça, uma noite de bunda virada não esfria a cabeça, esfria o cuidado, a relação. Faça as pazes antes de dormir. Ou pelo menos tente. Não passe a noite ensaiando no espelho o que você vai dizer com os olhos inchados de chorar, só porque te falaram que não há nada como “um dia após o outro”.

“Mas eu queria dizer o quanto ele está fazendo falta pra mim, que eu ainda o amo, que podemos ser felizes juntos”.
“Amiga, olha a dignidade. Você precisa se preservar”.

Nessas alturas eu já queria gritar. No amor não existe a palavra preservar. O apaixonado não preserva nem o meio ambiente dirigindo quilômetros, pra comer um pedaço de pizza em uma padaria e voltar em uma hora. O amor não preserva nem o amor, quanto mais o corpo, a dignidade, a honra.

Queria dizer para ela que sou a favor de fazer o que der vontade até passar a régua. O que importa ele achar que você está sofrendo quando você está sofrendo? O que importa ele achar que você está na prateleira esperando ele voltar quando sua poltrona realmente é a prateleira? Sou a favor de fazer o que der vontade mesmo que isso seja ser a louca.

O único conselho que eu vejo como certo no fim de um relacionamento é esse: faça o que tem vontade. Se essa vontade é se recolher e nunca mais olhar para o individuo: faça. Se for o contrário, se joga.

Quem é amigo tem que saber que o outro precisa passar por isso protegido ou não. Quem é amigo tem que respeitar a vontade do outro. Quem é amigo tem que dar colo sem julgamento.

Amiga, fuck se a atual vai te chamar de coitada, frustrada, acabada, mal comida e o diabo. Fuck o que ele vai pensar. Quem parte um coração, tem que saber que partiu um coração. 

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Bonsai

Por: Marianna Abdo

A primeira piada sobre relacionamento que ele me contou dizia que deveria ser legal namorar um bonsai. Assim, você poderia levar aquele vasinho para cima e para baixo, sem vozes, famílias e conflitos emocionais. “Imagina você na balada com um bonsai?”, disse ele rindo.

Diante da minha indignação ele recuou e soltou um risadão dizendo o velho e mentiroso: “É brincadeira”. 
 
Não era.
 
Se no lugar do bonsai ele tivesse dito uma rosa, nós estaríamos juntos porque sou cheia de espinhos.
 
Se fosse um girassol, eu estava dentro porque minha juba de leonina e sorriso avantajado ajudam bastante. E ainda dizem que eles captam a energia ruim do lugar. Ponto pra mim.
 
Mas ele queria um bonsai. Aquela arvorezinha baixinha, de pernas curtas, que faz poucas exigências e passa despercebida em uma casa, mas que não morre e você é obrigado a cuidar a vida inteira.
 
foi coerente e seguiu sua escolha.

 

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