Arquivo do mês: abril 2012

Memórias de um cão arrebatador

Por Juliana

Protagonista das histórias mais megalomaníacas e absurdas desde que chegou na família. Veio ao mesmo tempo do meu, o que nos fez apresentá-los como primos. E eram. Tinham a mesma relação afetuosa e um tanto conturbada, na base da provocação e carinho quase simultâneos.

Dono de uma boca sem seleção alguma. De batom a pote de sorvete vazio, ele mandava tudo pra dentro. Bolsa de couro, pratos esquecidos em cima da mesa, sapatos, cantinhos de qualquer coisa. Comida? Todas agradavam. Frutas, bolacha, pão com mortadela, alface. O hálito tornou-se peculiar marca registrada.

Carinhosamente batizado de Beto, apelido de um tio, o nome registrou diversas gargalhadas quando, por exemplo, numa ligação: “o Beto não passou a noite bem” ou “o Beto está há dias com o cocô mole”. Engano de quem pensou que pudesse ser o tio Beto. Era o cachorro.

Nos primeiros anos de vida, obedecia à minha tia, mãe por direito. Depois de latir e uivar ininterruptamente dias a fio e ser ameaçado de expulsão do prédio por um abaixo-assinado dos moradores, Beto precisava sair de casa. Beto, o cachorro. Melhor deixar claro porque num outro mal entendido poderiam achar que meu tio estava se separando.

Foi com os dois velhinhos mais queridos da minha vida que ele encontrou seu lar definitivo. Vovô e vovó estavam com as malas prontas para morar na praia e, mesmo com uma vida nova e desconhecida num momento já frágil, a decisão não foi difícil. Último item da bagagem: Beto.Claro, o cachorro.

Das mãos atenciosas da vovô, nada era negado. Betinho, como ela o chamava, compartilhou as embalagens de salame e mortadela que nem ela poderia comer. Do vovô era a rotina de colocá-lo para dormir diariamente. E ele respeitava o olhar soberano como um mantra e se retirava para os aposentos caninos fora da casa. Os dias de banho também eram especiais, quando ele subia num banco de concreto da casa vizinha e vovô o esfregava enquanto jogava água fria da mangueira. Debaixo do calor litorâneo, ele adorava.

E assim foi, durante 12 anos. Eles o criaram como avós fazem com os netos. Sem negações, frescuras, quase nenhuma disciplina. As trapalhadas causavam muito mais risadas do que repreensões. Se você é neto, certamente sabe. Se você é avô ou avó, também.

Digo foi porque agora ele faz parte do mundo invisível que a gente não pode tocar. Num sábado ensolarado e sem nenhum alarde, num silêncio estranho que não fez jus à fama de bagunceiro e destruidor, enquanto eu assistia a uma matéria do Xingu sobre a crença dos índios de que tudo, dos humanos às arvores, tem espírito.

Não deve ser coincidência (elas existem?), surgirem tantas lembranças gostosas de um ser que, agora, é apenas um espírito.

Creio que a morte nos mostra nossa impotência de uma forma estranha. Quinta à noite ele estava ali. Latiu, andou, comeu, fez xixi, quase conversou (como todos os bichos que são nossos). Em menos de dois dias e por um motivo que nem eu, nem você e nem ninguém controla, as memórias de passos tão rotineiros tornam-se apenas doces memórias.

Longe de tentar alcançar a dor que os velhinhos estão sentindo e que me custou olhos embaçados em muitas horas no último final de semana, essa é apenas minha pequena contribuição às memórias do cão que, nesse momento, representa tantos amigos bichos capazes de tamanho companheirismo e amor incondicional humanamente invejáveis.

 

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